nathanpa

cada dia um pouco mais inteligente menos burro

O poder dos generalistas

Lendo a biografia do físico Richard Feynman, me deparei com um trecho onde ele foi dar uma palestra em uma conferência cujo o tema era “Ética da igualdade”.

Richard Feynman

Essa conferência reunia especialistas de várias áreas, onde eles deviam contribuir — através de suas especialidades — com possíveis soluções para o mundo melhorar em relação a esse tema. Feynman se sentiu um pouco deslocado.

A primeira coisa a me chamar a atenção foi um diálogo que o físico teve com a pessoa responsável de registrar as pautas de cada um dos palestrantes, onde falaram sobre coisas simples serem faladas de maneira complexa:

“Apenas uma das coisas que aconteceu naquele encontro foi agradável ou divertida.

Cada palavra dita por qualquer pessoa do plenário era tão importante que eles tinham lá um estenógrafo para anotar.

Lá pelo segundo dia, o estenógrafo veio até mim e perguntou:

— Qual é a sua profissão? Com certeza não é professor.

— Sou professor — falei.

— De quê?

— De física; ciência.

— Ah! Deve ser por isso — disse ele.

— Por isso o quê? —

— Sabe, sou estenógrafo e registro tudo o que se diz aqui. Quando os outros caras falam, registro o que eles dizem, mas não entendo o que querem expressar. Mas toda vez que o senhor se levanta para fazer uma pergunta ou dizer alguma coisa, entendo exatamente o que quer dizer: de que problema se trata, e o que o senhor está dizendo. Por isso achei que não fosse professor.”

Além de todo mundo falar sobre temas das suas próprias áreas de formas complexas e que só eles entenderiam, outra coisa chamou a atenção de Richard: as pessoas tinham a síndrome do homem só com o martelo.

A síndrome do homem só com um martelo

Durante as palestras, Feynman observou um padrão que o deixou frustrado: cada especialista abordava o complexo problema da “ética da igualdade” utilizando exclusivamente as ferramentas e o jargão de sua própria disciplina.

Generalistas: convenção da ética da igualdade

O estudioso de religião falava em termos de teologia e escrituras; o filósofo aplicava lógicas filosóficas abstratas; o sociólogo analisava a questão sob a ótrica de estruturas sociais.

Feynman percebeu que não existia um diálogo construtivo ou uma tentativa de síntese. Em vez de colaborarem para formar um novo entendimento, os especialistas estavam apenas reafirmando a validade de suas próprias áreas, aplicando soluções pré-concebidas a um problema que talvez exigisse uma nova abordagem.

“Tá, Nathan, mas o que isso tem a ver com essa síndrome que você falou?”

Generalistas: síndrome do homem com só um martelo

O HOMEM COM SÓ UM MARTELO: Esse conceito, popularizado por Charlie Munger vem através da frase: “Para um homem com apenas um martelo, todo problema é um prego”.

  • Tendemos a resolver os problemas na nossa frente com base nas ferramentas que temos a mão (nossas habilidades, especialidades e conhecimentos)
  • Poucos são os problemas que são resolvidos com abordagens unidisciplinares
  • Em vez de analisar o problema e depois escolher a melhor solução, você pega sua solução favorita e tenta fazer o problema se encaixar nela.

Não é nada incomum uma reunião de diretoria de uma empresa que o seguinte caso de melhorar os números se apresenta:

Generalistas: Reunião de diretores

  • O Diretor de Marketing vai dizer: “O problema é o marketing! Precisamos de mais anúncios!”
  • O Engenheiro-Chefe vai rebater: “Não! O problema é o produto! Precisamos de mais funcionalidades!”
  • O Diretor Financeiro vai concluir: “Vocês estão errados! O problema é o custo! Precisamos cortar despesas!”

Cada um defende sua própria área, mas ninguém resolve o problema real da empresa, que provavelmente é uma combinação de tudo isso.

Sabendo de tudo isso, o que devemos fazer para evitar essa síndrome?

Geralmente, especialistas são mais bem remunerados

Existe toda uma discussão sobre qual caminho seguir na vida: se especializar em algo ou saber um pouquinho de cada coisa? (Isso partindo da premissa que é improvável saber muito sobre muitas coisas)

Geralmente, quando essa pergunta é feita ela é acompanhada de:

  • O que dá mais dinheiro?
  • O que é mais fácil?

Especialistas x Generalistas

E, por incrível que pareça, esta não é uma pergunta difícil de ser respondida. No geral, especialistas vencem essa batalha, pois resolver problemas muito específicos — os quais apenas especialistas conseguem resolver — geralmente paga bem.

Um primeiro exemplo bem exagerado: você não vai querer operar seu joelho com um médico que conheça bem a filosofia Kantiana e sim com alguém que tenha vasta experiência e especialidade em cirurgias no joelho.

Outro exemplo mais atual é sobre o quanto as big techs estão pagando para especialistas em IA.Meta oferece salários altíssimo para pesquisadores de IA

Artigo aqui

Na maioria das vezes, ser especialista vai ser a resposta das perguntas que eu trouxe acima.

Porém, algumas ressalvas:

  • Não é toda área que permite com que você seja bem remunerado pela sua especialidade
  • Especialidade também conta com atualização do seu conhecimento
  • Facilidade não quer dizer que é fácil no geral, mas sim que o caminho para aprender algo dentro da mesma área é mais fluido do que sair dela

Então, se você queria apenas a resposta dessa pergunta, o que vem a seguir pode ser que não te interesse.

Porém, para mim, chegamos na parte divertida.

Por que ser um generalista?

Existe uma premissa simples para buscar resolver nossos problemas com abordagens generalistas: o mundo não é especialista.

O mundo não é especialista

A maioria dos problemas que existem no mundo, raramente são resolvidos com apenas uma abordagem. Endereçar corretamente com quais conceitos e ferramentas um problema real deva ser resolvido é função de um generalista.

O mundo não é eespecialista

E é assim que os problemas reais são resolvidos.

Então, o primeiro argumento para se tornar um generalista é que você será capaz de ver o mundo como ele realmente é. (Confesso, não é um argumento muito convincente)

Aquilo que valorizamos

Tendemos a valorizar mais aquilo que gostamos, entendemos e nos esforçamos para aprender ou construir.

O EFEITO IKEA: O nome vem da loja de móveis sueca, porque estudos mostraram que as pessoas que montavam suas próprias estantes estavam dispostas a pagar mais por elas do que por estantes idênticas já montadas por profissionais.

Generalistas: efeito IKEA

  • O trabalho que você coloca em algo se transforma em um sentimento de realização e carinho.
  • Esse sentimento de “eu fiz” aumenta o valor dela para você.

Outro estudo, mostrando o conceito de “justificativa de esforço” (1959) mostrou algo similar:

  • Metodologia: Mulheres que desejavam participar de um grupo de discussão sobre psicologia sexual foram submetidas a diferentes níveis de “iniciação” – um processo embaraçoso (esforço alto) ou um processo simples (esforço baixo).
  • Resultados: As participantes que passaram pela iniciação de maior esforço avaliaram a discussão em grupo — que foi propositalmente monótona — como muito mais interessante e valiosa do que aquelas que passaram pela iniciação fácil.

Ou seja, quando nos esforçamos para conhecer mais sobre algo, valorizamos mais tudo o que envolve aquele conhecimento. São nossos hobbies, que não é difícil obter motivação extra para aprender mais sobre eles, já que é algo que estamos praticando por vontade própria.

Além do mais, existe uma proporcionalidade entre conhecimento e contemplação, que quanto mais sabemos sobre algo, mais conseguimos contemplar aquilo:

É quando:

  • Sabemos os bastidores do filme
  • A história de criação da música
  • Os acontecimentos por trás de uma série baseada em uma história real
  • O contexto de criação do nosso objeto de desejo

Por aprender sobre vários temas, generalistas tendem a entender mais sobre outras coisas.

Os problemas da nossa vida

Os problemas do nosso trabalho são apenas uma parte da nossa vida.

E, mesmo que o trabalho chegue a ocupar quase 1/2 da nossa vida por algum tempo, temos vários outros tipos de problema para resolver.

Alguns exemplos:

  1. Organizar nossos investimentos
  2. Escolher qual carro comprar
  3. Entender as premissas do imposto de renda (mesmo não fazendo)
  4. Saber o preço das coisas

Geralmente, quando terceirizamos outros problemas da nossa vida buscando baixo custo, tendemos a perder mais dinheiro do que ganhar tempo. Ou seja, até terceirizar coisas que não podemos/sabemos fazer é uma habilidade.

Quer um bom exemplo?

John Bogle, autor do livro “O investidor de Bom Senso”, trouxe no livro uma comparação da performance dos maiores gestores de fundo vs o índice mais conhecido do mercado americano.

Lembrando: os gestores de fundo são pagos para terem altas performances no mercado*

*superar o índice é o mínimo que eles deveriam obter.

Existe um estudo famoso chamado SPIVA Scorecard. Ele seria o placar oficial do jogo “Gestores Profissionais vs. Mercado (S&P 500)”. E os resultados são meio.. veja por si só:

SPIVA Scorecard

  • A grande maioria perde: a maioria esmagadora dos gestores de fundos perde para a performance de um simples índice como o S&P 500.
  • O tempo piora tudo: se no curto prazo alguns gestores têm sorte, no longo prazo a situação fica feia. Depois de 15 ou 20 anos, mais de 95% tem uma performance abaixo do índice.
  • 1% a 2%: é a faixa de taxas de administração anuais que fundos ativos cobram, um obstáculo matemático gigante para superar o mercado, que possui fundos de índice com custos próximos de zero.

Ou seja: os investidores de grandes fundos pagam de 1 a 2% do valor investido no fundo (bilhões) para que os gestores no longo prazo não superem o índice — coisa que você faria facilmente investindo em um fundo de índice com taxa de administração quase zerada.

Se você não se aprofundasse em investimentos, poderia ser um desses investidores que estariam pagando para fazer um péssimo investimento.

Aprender nunca perde a graça

Imagine que a vida é um feed de reels e cada coisa nova que você aprende é um vídeo de 30 segundos que aparece lá Cada vídeo desse gera um pico de dopamina e você quer ir pro próximo para obter outro pico.

Se você for obtendo novos conhecimentos durante a vida e ver a analogia passada onde cada vídeo é algo novo que você aprende em alguns meses/anos, você vai ter o próprio processo de aprendizado como recompensa.

O ciclo funciona mais ou menos assim:

Ciclo de dopamina com novos aprendizados

  • 1. Dopamina: A dopamina age como o sistema de motivação (“querer”) que nos impulsiona a explorar e buscar informações, antes mesmo de qualquer “recompensa”.
  • 2. O “AHA!” é o prêmio: O cérebro libera dopamina não pela resposta em si, mas pela surpresa positiva de encontrar uma solução.
  • 3. O cérebro ama coisas novas: Estudos mostram que o cérebro reage a estímulos novos ativando as mesmas áreas de recompensa usadas para comida e dinheiro. Aprender estimula a curiosidade.
  • 4. O aprendizado é “salvo” no cérebro: A dopamina liberada durante o aprendizado ajuda a fortalecer as conexões entre os neurônios (neuroplasticidade), consolidando a memória do que foi aprendido.

De maneira simplória, isso quer dizer que aprender coisas novas constantemente nunca perde a graça.

Criatividade é conexão

Segundo o livro “Roube como um Artista” de Austin Kleon. A inovação é, na verdade, uma curadoria inteligente.

Ao invés de buscar a ideia do século ou algo 100% original, você deveria ter a disciplina de colecionar e combinar boas ideias. Bom, não preciso comentar que quanto mais distantes as áreas cujo as ideias são conectadas, maior o grau de criatividade.

Ou seja, inovação é um “roubo” feito de maneira inteligente.

Generalistas: roube como um artista

  • Roubar de muitas fontes é pesquisa; roubar de uma é plágio. O segredo é estudar e honrar diversas influências, não apenas copiar uma.
  • Seja um colecionador: Seu principal trabalho é construir repertório. Kleon sugere manter um “arquivo de referências” com tudo que te inspira para ter um banco de ideias para remixar.
  • Comece copiando: Comece copiando seus heróis para aprender o processo. Sua voz própria surgirá da “falha” em ser uma cópia perfeita e da combinação única de suas próprias influências.

Em tese, para ser criativo com método você precisa ter várias referências de várias áreas (obter conhecimento multidisciplinar)

Como obter conhecimento multidisciplinar

Eu confesso que não sou a melhor pessoa para mostrar o caminho, mas como vim estudando essa abordagem nos últimos anos, posso ficar sobre o ombro de gigantes e trazer algumas lições interessantes.

1. Comece pelo que você tem interesse

Você já sabe as seguintes coisas:

  • A dopamina age como o sistema de motivação que nos impulsiona a explorar e buscar informações, antes mesmo de qualquer “recompensa”.
  • A dopamina liberada durante o aprendizado ajuda a fortalecer as conexões entre os neurônios (neuroplasticidade), consolidando a memória do que foi aprendido.
  • Você possui mais motivação para procurar sobre certos temas de que você já tem interesse.

Então, o primeiro passo para buscar sobre temas que estão fora da sua alçada é buscar sobre coisas que você já gosta, isso vai te ajudar a se manter engajado a aprender sobre esses temas, mesmo que sejam difíceis.

Esse seria o primeiro passo para você aprender mais sobre temas fora da sua especialidade:

Comece pelo que você tem interesse

2. As grandes ideias das grandes disciplinas

WORDLY WISDOM: Munger diz que o antídoto para a síndrome do homem com apenas um martelo é a “Sabedoria Prática Universal” (ou Wordly Wisdom): um domínio das grandes ideias das principais disciplinas do conhecimento.

Alguns exemplos sempre citados por Munger:

  • Psicologia: Entender os vieses cognitivos que afetam as decisões.
  • Matemática: Dominar a teoria das probabilidades e os juros compostos.
  • Biologia: Usar o modelo da evolução por seleção natural para entender sistemas.
  • Economia: Os conceitos de vantagem comparativa e de oferta e demanda.
  • Física: Ponto de inflexão e modelos de equilíbrio de Newton

Para Munger, ser verdadeiramente inteligente não é ser o maior especialista em uma coisa, mas ter um “arsenal” de modelos mentais de diversas áreas para entender o mundo como ele realmente é: complexo e interconectado.

Sabendo os conceitos centrais das grandes disciplinas, você precisa conectá-las.

3. Conecte as ideias em uma grande treliça

As grandes ideias das diversas áreas do conhecimento são inúteis se permanecerem isoladas, segundo Charlie Munger. Elas precisam ser organizadas em uma “treliça de conhecimento” uma estrutura mental que conecta os modelos e os faz funcionar em conjunto.

Ter uma treliça transforma o conhecimento de uma checklist para um sistema real de tomada de decisão.

Generalistas: treliça de conhecimento

Em vez de usar um único modelo, você analisa um problema através de múltiplas lentes simultaneamente, o que aumenta drasticamente a precisão da sua análise, sendo focada agora em como o mundo real lida com problemas — de maneira multidisciplinar.

  • A treliça força os modelos a interagirem. Um modelo da psicologia (como o viés de aversão à perda) pode explicar por que um modelo puramente econômico está falhando em prever o comportamento do mercado.
  • Ao enfrentar um problema, a pergunta correta não é “Qual modelo eu uso?”, mas sim “O que todos os meus principais modelos dizem sobre isso?”

Munger afirma que você deve “pendurar” suas experiências — diretas e indiretas — nessa estrutura de modelos, tornando-a mais rica e robusta com o tempo.

O que conecta muito com o checklist de Daniel Kahneman para “Domar previsões intuitivas”:

Domando previsões intuitivas

  1. Comece pela média (Taxa-Base): Primeiro, ignore os detalhes específicos do caso e defina qual é o resultado médio para o grupo geral. Esta é a sua âncora estatística.
  2. Use sua intuição: Agora sim, com base na sua pista ou informação específica, dê um palpite puramente intuitivo sobre o resultado.
  3. Meça a correlação: Avalie o quão forte é a ligação real entre a sua pista e o resultado final. Use um valor de 0 (nenhuma ligação) a 1 (ligação perfeita) para representar essa força.
  4. Ajuste a intuição: Calcule a distância entre o seu palpite intuitivo e a média. Em seguida, aplique a correlação a essa distância para encontrar o ajuste realista.
  5. Chegue à previsão realista: Some o ajuste que você calculou à média inicial para obter sua previsão final — uma estimativa mais precisa e estatisticamente defensável.

Um bom exemplo é determinar as notas médias da faculdade (GPA – 1 a 4) de uma menina que começou a ler com 4 anos de idade:

  1. A taxa base: O GPA médio de todos os estudantes da faculdade é 3,0.
  2. A Intuição: O palpite intuitivo, baseado na informação de que ela lia cedo, é um GPA alto de 3,8
  3. A correlação: A ligação real (correlação) entre ler cedo e ter notas altas na faculdade é fraca. A força estimada é 0,3 (ou 30%).
  4. O Ajuste:A distância entre a intuição (3,8) e a média (3,0) é de 0,8.O ajuste realista é 30% de 0,8, que resulta em 0,24.
  5. A previsão realista: A previsão final é a média mais o ajuste: 3,0 + 0,24 = 3,24.

 

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