nathanpa

cada dia um pouco mais inteligente menos burro

Diminuindo a irracionalidade de curto prazo

Algumas coisas que venho refletindo nos últimos meses:

  1. O que diferencia — de maneira concreta — uma pessoa experiente de uma inexperiente?
  2. Como conquistar a confiança para aplicar conhecimentos referentes as coisas que você não viveu?
  3. Por que tendemos a “pagar pra ver” em relação a erros que outras pessoas já cometeram?
  4. “Aprender com o erro dos outros” é só falácia ou é possível em boa parte das situações?
  5. Se existisse alguma forma de ver o futuro, será que tomaríamos melhores decisões de curto prazo?

Essas perguntas surgem quando eu percebo que eu mesmo sou uma pessoa que busca “pagar pra ver” em situações que outras pessoas não se deram tão bem.

O que no geral, é um erro.

Existe um viés básico que explica essa situação, o viés do “Excesso de confiança”

EXCESSO DE CONFIANÇA: O excesso de confiança é a tendência de acreditar que suas habilidades e julgamentos são melhores do que realmente são, cegando você para os seus verdadeiros limites. Esse viés pode ser a causa raiz de decisões ruins e estimativas irrealistas. Ele nos faz subestimar riscos e ignorar conselhos.

  • O “contágio” do sucesso: Ser muito bom em uma coisa (ex: finanças) cria uma falsa sensação de que você será bom em outra (ex: marketing).
  • Atalho mental: É mais fácil e rápido para a mente assumir “eu sou competente” do que fazer o trabalho duro de analisar friamente uma nova situação.
  • A armadilha do especialista: Pessoas de sucesso são as mais vulneráveis. Elas tendem a usar a “ferramenta” de sua expertise para resolver todo tipo de problema, mesmo os inadequados. (A síndrome do homem com um martelo)

Olhando para o outro lado, existe duas coisas que estão me ajudando a tomar melhores decisões de curto prazo olhando para o futuro:

  1. Pensar através de taxas base (ou pensamento probabilístico)
  2. Procurar estudos robustos que mostrem o contexto da decisão que estou tomando

O número 1 tem mais a ver com fazer boas apostas quando as probabilidades estão ao seu favor e o 2 já é quase como prever o futuro.

Pensamento probabilístico

Pensar probabilisticamente não tem nada a ver com conceitos complexos e matemáticos. Tem mais a ver com feeling.

Um exemplo extremo que sempre penso é a chance de você falecer indo na padaria da esquina.

A PADARIA NA ESQUINA: Imagine que todo dia você vai comprar pães na padaria na esquina de onde você mora. Nesse meio, existe a possibilidade de você falecer no caminho, mas a probabilidade é baixa.

  • Taxa base: quantas pessoas fazem o mesmo percurso que você e sobrevivem ao caminho (probabilidade)
  • Taxa causal: fatores que podem influenciar que a taxa base não influencie o evento da maneira esperada (influência na possibilidade)
  • Confiança: o quanto a taxa causal pode influenciar para modificar a taxa base

O ponto é que muitas vezes na nossa vida olhamos mais para a possibilidade para tomar uma decisão do que para a probabilidade. E isso pode nos fazer tomar decisões perigosas em ambos os lados:

  1. Apostar baixo quando as probabilidades estão a nosso favor
  2. Apostar alto quando as probabilidades estão contra nós

Para levar esse tipo de pensamento para o dia a dia, você precisa entender sobre o modelo mental de pensar probabilisticamente.

O modelo mental

Pensar de forma probabilística é parar de buscar respostas “sim” ou “não” (8 ou 80) e começar a calcular as chances dos resultados possíveis, aceitando a incerteza como regra.

Essa abordagem separa uma boa decisão de um bom resultado. Decisões inteligentes podem falhar por puro azar, e decisões estúpidas podem dar certo por sorte. Focar em ter um processo sólido é o que garante vitórias no longo prazo.

  • Pense como um meteorologista, não como um vidente. Em vez de afirmar “vai dar certo”, afirme “há 70% de chance de sucesso”. Isso reflete a realidade e prepara você para os outros 30%.
  • Infelizmente, seu cérebro odeia isso. A mente humana busca a certeza para economizar energia e evitar o estresse da dúvida. É por isso que uma história simples (“vai ser um sucesso!”) é mais atraente que uma análise fria de probabilidades.
  • As chances mudam. Cada nova informação é uma oportunidade de recalcular as probabilidades. Não se apegue à sua aposta inicial; atualize suas crenças constantemente.

Pensando em apostas

Uma forma mais corriqueira de aplicar o pensamento probabilístico é pensar através de apostas, como um jogador de Poker.

Esse conceito vem do livro da Annie Duke: Pensar em Apostas.

Annie Duke ensina a tratar suas decisões como apostas em um jogo de pôquer — um exercício de gerenciar a incerteza — e não como lances em um tabuleiro de xadrez onde a vitória é garantida.

Isso liberta você da tirania dos resultados. Uma ótima decisão pode levar a uma perda (azar), e uma péssima decisão pode levar a uma vitória (sorte). Focar no processo, e não no resultado de uma única “jogada”, é a única forma de vencer a longo prazo.

O GUIA RÁPIDO:

  • Divorcie decisão de resultado. Julgue uma escolha pela informação que você tinha naquele momento, não pelo que aconteceu depois. Pergunte: “Foi uma boa aposta?”, e não “Eu ganhei?”.
  • Fale em probabilidades. Troque “tenho certeza” por “estou 80% confiante”. Isso força a honestidade intelectual e abre espaço para o debate sobre os 20% restantes.
  • Monte um “esquadrão da verdade”. Crie um grupo focado em questionar suas ideias, não em validá-las. O objetivo é encontrar a falha no seu raciocínio antes que a realidade o faça.
  • “Preveja” o futuro. Se veja em cenários de grandes vitórias/grandes derrotas e imagine o caminho até cada um desses extremos. Esse tipo de análise te diz o que fazer para alcançar a vitória e o que evitar para fugir da derrota.

Exemplos

Alguns exemplos de abordagens do pensamento probabilístico:

POKER: O poker de alto nível não é sobre adivinhar ou ter “coragem”; é sobre tomar consistentemente a decisão com o maior valor esperado (EV+), independentemente de você ganhar ou perder aquela mão específica.

  • Ignore o resultado da mão. Se você apostou tudo com 80% de chance de ganhar e perdeu, você fez a jogada certa. Isso é uma bad beat. Se ganhou com 20% de chance, teve sorte. Apenas o processo de decisão importa.
  • Pense em “equity” e “odds”. Nunca diga “acho que estou na frente”. Calcule: Qual a probabilidade da minha mão vencer? O tamanho do pote justifica o preço para continuar? A aposta é matemática, não intuição.
  • Pense no futuro. Antes de apostar, planeje: O que farei se meu oponente aumentar? Que cartas no turn ou river me ajudam ou prejudicam? Uma boa aposta faz parte de um plano para a mão inteira.

SUPER BOWN XLIX: A infame decisão do Seattle Seahawks de passar a bola na linha de 1 jarda no Super Bowl XLIX não foi pânico ou loucura; foi uma aposta calculada, baseada em probabilidades, que representa um exemplo perfeito de um bom processo com um resultado desastroso.

Este momento ensina a lição mais difícil do “Pensamento em Apostas”: o mundo julga as decisões pelos resultados.

  • O passe comprava mais chances. Um passe incompleto pararia o relógio, garantindo aos Seahawks mais duas jogadas (3ª e 4ª descida) com tempo e um timeout no bolso. Uma corrida que falhasse queimaria o timeout e o tempo, limitando as opções.
  • Eles atacaram a fraqueza. Os Patriots colocaram 8 jogadores para parar a corrida óbvia de Marshawn Lynch. A aposta foi que um passe rápido teria uma vantagem contra uma defesa totalmente vendida.
  • O desastre era um evento raro. A chance de uma interceptação naquela jogada específica era historicamente menor que 2%. O risco real era um passe incompleto — um resultado aceitável. Eles perderam para a aposta de ~2%.

A jogada falhou, mas o processo estava correto. Foi um caso de azar no maior palco do mundo, e um lembrete brutal de que, mesmo com as probabilidades a seu favor, o resultado nunca é garantido.

No outro dia, Pete Carroll foi crucificado nos jornais. Mas, na verdade, sua decisão foi a mais correta.

Prevendo o futuro através de estudos robustos

Outra forma de evitar a confiança excessiva é entender como o mundo realmente funciona (taxas base) através de estudos robustos. Isso nos ajuda a não achar que os nossos casos são excepcionais e que a possibilidade vai vencer a probabilidade alta.

Por serem inacessíveis e estarem longes da mídia, geralmente fugimos de artigos e estudos científicos. Mas eles podem ser muito úteis para evitar a irracionalidade de curto prazo.

Mas, uma coisa que sempre surge como objeção é: será que as coisas acontecerão de novo da maneira que aconteceram antes?

A história não se repete, mas ela rima

A frase “a história não se repete, mas rima” é uma verdade científica: os eventos exatos são únicos, mas os padrões de comportamento humano são até previsíveis, impulsionados por uma biologia e psicologia que não mudaram em milênios.

Entender as “rimas” da história — de bolhas financeiras a polarização política — nos dá um manual de instruções sobre o presente. É a ferramenta mais poderosa para identificar riscos e oportunidades que outros, focados apenas no que é “novo”, não conseguem ver.

  • Nosso cérebro opera com um software antigo. Vieses como pânico em massa, pensamento de grupo e euforia são universais.
  • A biologia do “nós vs. eles” é atemporal. O tribalismo, a resposta ao medo e a busca por status são programados em nosso DNA. Políticos exploram os mesmos medos hoje que eram explorados na Roma antiga.
  • Sistemas complexos geram ciclos. Sociedades e economias seguem padrões recorrentes, como ciclos de dívida e a ascensão e queda de impérios. Esses padrões são maiores que qualquer indivíduo e criam as “estações” da história.

Estudar história não te garante prever o futuro, mas te ajuda a reconhecer o “ritmo” do comportamento humano.

Exemplo 1: Nem Deus pode bater a estratégia do preço médio

Um famoso estudo (“Even God Can’t Beat Dollar-Cost Averaging”) mostrou que um investidor “divino” com timing perfeito para comprar na baixa do mercado muitas vezes perde para a estratégia simples de investir um pouco a cada mês (Preço Médio – DCA).

Isso prova que “tempo no mercado” é mais poderoso do que “tentar acertar o tempo do mercado”. A busca pela perfeição pode paralisá-lo, fazendo com que você perca os ganhos que ocorrem enquanto você espera pela queda que pode nunca vir.

INVESTIR TUDO VS. AOS POUCOS

A verdade matemática: Para quem tem uma grande quantia de dinheiro em mãos (um bônus, uma herança), a estatística é clara: investir tudo de uma vez (Lump Sum) supera o Preço Médio (DCA) em 2 de cada 3 cenários históricos.

A vitória psicológica: Mas, por que o DCA é tão recomendado? Porque ele é uma estratégia desenhada para humanos, não para robôs. Ele nos protege de nossos piores inimigos: o medo e o arrependimento.

  • Minimiza o arrependimento: O DCA evita a dor catastrófica de investir todo seu dinheiro na véspera de uma grande queda.
  • Reduz o estresse: Ele transforma uma decisão enorme e assustadora (“devo investir R$100.000 hoje?”) em um hábito pequeno e automático.
  • Força a disciplina: Automatizar os investimentos impede que você entre em pânico e venda na baixa, ou que a euforia o faça tentar adivinhar o topo.

A melhor estratégia de investimento não é a que tem o maior retorno médio no papel, mas aquela que você consegue seguir sem desistir no meio do caminho. Para a maioria das pessoas, essa estratégia é o Preço Médio. Ela troca um pouco de potencial de ganho por uma chance muito maior de paz de espírito e sucesso a longo prazo.

Sabendo disso, você tende a diminuir a irracionalidade de curto prazo nos investimentos, evitando decisões ruins de curto prazo em prol do que já se provou funcionar no longo prazo.

Exemplo 2: Através do status quo

Um estudo de referência da AQR (“Beyond the Status Quo”) mostra que a regra de ouro de ter mais ações quando jovem e mais títulos quando velho é ineficiente. A estratégia superior envolve usar alavancagem moderada no início da vida e focar em uma diversificação radical em todas as fases.

A abordagem tradicional deixa dinheiro na mesa quando você é jovem e o expõe a um risco catastrófico perto da aposentadoria. O novo modelo oferece uma jornada de investimento mais suave e, na maioria das vezes, um patrimônio final maior e mais robusto.

Jovem: Você tem muito “capital humano” (décadas de salários futuros) e pouco capital financeiro. Pode, portanto, assumir muito risco. A recomendação é ter uma alta concentração em ações (ex: 90%).

A sabedoria financeira convencional é simples, mas sub-ótima. A abordagem científica é mais complexa, mas constrói um caminho mais seguro e eficiente para a aposentadoria, protegendo você contra a dependência de um único motor de retorno: a sorte do mercado de ações.

Esse é mais um exemplo de fugir de coisas que consideramos convencionais e corretas para tomar melhores decisões de curto prazo,

Exemplo 3: O teste do marshmallow

O famoso “Teste do Marshmallow” revelou que a simples capacidade de uma criança de adiar a gratificação — esperar por um segundo doce em vez de comer um imediatamente — é um dos mais fortes preditores de seu sucesso financeiro, acadêmico e de saúde décadas mais tarde.

Isso mostra que a habilidade de gerenciar o impulso de curto prazo em favor de uma recompensa futura é uma “meta-habilidade” que impacta todas as áreas da vida, de investimentos (juros compostos) a saúde (evitar junk food) e carreira (estudar para uma promoção).

  • É uma habilidade, não um superpoder. As crianças que esperavam não eram mais “fortes”, mas mais “inteligentes”. Elas usavam truques mentais para se distrair: cantavam, se viravam ou imaginavam que o marshmallow era uma nuvem.
  • É uma batalha cerebral. O teste é um confronto direto entre o cérebro impulsivo e emocional (Sistema 1, que quer o doce agora) e o cérebro lógico e de longo prazo (Sistema 2, que calcula o benefício de esperar).
  • Confiança é crucial. Estudos mais recentes mostram que o ambiente importa. Crianças de lares instáveis, onde promessas são quebradas, aprendem que é mais racional pegar a recompensa garantida imediatamente. O ambiente também conta.

Adiar a gratificação não é um traço de personalidade fixo, mas uma habilidade estratégica que pode ser ensinada e aprendida. Dominá-la é o equivalente a destravar o poder dos juros compostos em todas as áreas da sua vida.

Uma síntese

Bom, com base em tudo o que você leu até agora, existem algumas formas de evitar a irracionalidade de curto prazo através de boas decisões olhando para o futuro:

  1. Círculo de competência: não buscar tomar decisões complexas e de alto nível em áreas que você não domina. Você pode terceirizar ou adiar decisões até se aprofundar mais nos temas. Isso te ajuda a fugir
  2. Pensamento probabilístico: sair do 8 ou 80 e tentar ver o futuro como cenários prováveis e improváveis. Olhar para taxas base, taxas causais e confiança no cenário atual.
  3. Pensar em apostas: entender que decisões boas podem gerar resultados ruins e entender que faz parte do jogo. O foco é em tomar decisões boas e que joguem ao seu favor na maioria do tempo.
  4. Estudos robustos: olhar para o funcionamento do futuro através de estudos robustos e com muitos dados nos ajuda a evitar decisões que consideramos boas no presente. O comportamento esperado do futuro difere muito do que achamos que realmente será por padrão.

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