Minha relação com os livros mudou drasticamente ao longo dos anos, saindo de uma certa vaidade para focar em qualidade.
Querendo ou não, vivemos na era da “obesidade mental”.
Nunca na história da humanidade o acesso ao conhecimento foi tão democrático, e paradoxalmente, nunca fomos tão superficiais. Existe uma crença não explicitada no mundo do desenvolvimento pessoal e profissional: a de que o volume de consumo de informação é diretamente proporcional à aquisição de sabedoria.
Vemos metas de ano novo que gritam “ler 50 livros este ano”, influencers exibindo pilhas de livros lidos no mês e uma corrida desenfreada para consumir podcasts em velocidade 2x.
Quando comecei a jornada, sendo um consumidor ávido desse tipo de conteúdo, era focado nessa métrica de vaidade:

- 1 – Volume: Comecei com a meta de 1 livro/mês, acelerando para 2 livros/mês.
- 2 – Filtro: Reduzi drasticamente para 10 livros excelentes por ano.
- 3 – Retenção: Hoje, não tenho meta numérica. Foco 100% na qualidade e na retenção. Sinto-me mais preparado dominando poucos temas do que quando tentava abraçar o mundo.
Estudos mostram que o consumo passivo e acelerado de conteúdo gera familiaridade, mas falha em criar as conexões neurais necessárias para a memória de longo prazo e aplicação prática.
Muito volume sem profundidade é como encher um balde furado.
A ILUSÃO DE COMPETÊNCIA: O cérebro humano diferencia drasticamente “reconhecer uma informação” de “aprender uma informação”.

- Consumir conteúdo em excesso sobrecarrega o processamento cognitivo.
- A retenção exige esforço, repetição e tempo (o oposto da leitura dinâmica desenfreada).
- É preferível dominar poucos modelos mentais robustos do que ter uma visão superficial de mil teorias.
Além de buscar volume, nós também tendemos a uma generalização extrema: queremos saber muito sobre tudo — o que é matematicamente impossível, considerando nossas limitações de tempo e de “espaço no nosso HD”.
Existe um modelo mental que nos ajuda a determinar o que sabemos e “onde” sabemos.
O CÍRCULO DE COMPETÊNCIA: A inteligência não é saber tudo, é saber onde você é forte e operar ali dentro.

- Defina o perímetro do seu conhecimento.
- Aprofunde-se verticalmente em temas chave.
- Ignore o ruído fora do seu foco atual.
“Não sou nenhum gênio. Sou esperto em alguns lugares e eu fico ao redor desses lugares.” — Thomas Watson Sr.
Ler menos não significa aprender menos. Significa escolher melhor as batalhas intelectuais que você quer lutar, considerando uma limitação de tempo e de “armazenamento”. Ao estreitar o foco, transformamos informação passageira em ferramentas permanentes para resolver problemas reais.
A engenharia da memória
A maioria das pessoas lê um livro como quem assiste a um filme: linearmente, do início ao fim, esperando que a história fique na cabeça. Mas livros técnicos e de não-ficção não funcionam assim.
O aprendizado exige atrito.
O PARETO DOS CONTEÚDOS: Em quase qualquer livro de negócios, desenvolvimento pessoal ou técnico, cerca de 20% das páginas contêm 80% do valor real da obra. O restante são anedotas repetitivas, exemplos para encher linguiça editorial ou contextos desnecessários.

- Identifique o “núcleo” do livro e foque sua energia nele.
- Sinta-se livre para abandonar capítulos que não agregam ao argumento central.
- Ler um livro de capa a capa é uma regra escolar, não uma regra de aprendizado.
Uma vez que filtramos o que importa, esbarramos no nosso maior inimigo biológico: o esquecimento.
O cérebro humano não evoluiu para ser um disco rígido de armazenamento de dados; ele evoluiu para processar situações de sobrevivência em tempo real.
O que não é usado, é descartado.

A CURVA DO ESQUECIMENTO: Estudos mostram que esquecemos cerca de 50% do que aprendemos em questão de horas e até 70-80% em poucos dias se não houver revisão. Ler sem revisar é, literalmente, jogar tempo fora.
- A única maneira de combater a curva é a Repetição Espaçada.
- Revisar um conceito chave 5 vezes ao longo de um mês é mais eficiente do que ler 5 conceitos novos uma única vez.
- Uma rotina de revisão é a parte mais essencial (e negligenciada) do aprendizado contínuo.
“Eu não tenho medo do homem que praticou 10.000 chutes uma vez, mas sim do homem que praticou o mesmo chute 10.000 vezes.” — Bruce Lee
A importância da escolha
Se aceitamos que nosso tempo é finito e nossa memória é falha, a conclusão lógica é que a seleção do que ler é a decisão mais importante que podemos tomar. Não podemos nos dar ao luxo de ler qualquer coisa.

VOLTANDO AO CÍRCULO: Você não precisa ser um especialista em tudo. O sucesso vem de delimitar onde você é bom e operar estritamente dentro desse território. Tentar aprender “um pouco de tudo” resulta em conhecimento superficial que quebra sob pressão.
- Defina 3 a 4 áreas que são cruciais para sua vida e carreira.
- Aprofunde-se verticalmente nesses temas até dominar os fundamentos inabaláveis.
- Ignore opiniões e literaturas fora do seu círculo até que sua base esteja sólida.
Porém, mesmo dentro de poucas áreas, existem muitos conteúdos e por isso você deve saber priorizar o que é necessário focar em cada uma delas.
PIRÂMIDE DE RELEVÂNCIA: Imagine o conhecimento disponível como uma pirâmide. A base deve ser larga e feita de conhecimentos baseados em coisas que não mudam, como psicologia humana, matemática, lógica. O topo são as táticas do momento.

- Base: Fundamentos (Biologia, Psicologia, Microeconomia, etc). Leia e releia sempre.
- Meio: Questões técnicas. Atualize conforme necessário.
- Topo: Tendências (Ferramenta X, Notícia Y). Consuma rápido e descarte.
É claro que a curiosidade é vital. Não precisamos ser robôs. Você pode e deve navegar por outros temas quando os relevantes estiverem maçantes. O cérebro precisa de novidade para se manter motivado. Mas saiba a diferença entre leitura de lazer e construção de competência.
APRENDENDO E FAZENDO: O aprendizado real só se cristaliza na aplicação. Este modelo propõe um “congelamento” no consumo de novas informações até que a informação atual tenha sido testada.
- Leu um conceito novo? Pare de ler.
- Desenhe um plano imediato de como aplicar isso hoje ou nesta semana.
- Execute. Erre. Ajuste.
- Só depois de transformar a informação em experiência, volte para o livro.
Isso torna a leitura mais lenta? Sim, drasticamente mais lenta. Mas torna o aprendizado infinitamente mais rápido. Você prefere ler 10 livros sobre liderança e continuar sendo um chefe ruim, ou ler 1 capítulo, aplicá-lo com sua equipe e ver o resultado real?
Um algoritmo para a vida
Adotar a filosofia de “menos é mais” na leitura é meio como ir na contra mão do que está sendo passado pelos gurus nos últimos anos.
- É preciso coragem para não ter opinião sobre o assunto do momento.
- É preciso coragem para reler o mesmo livro pela terceira vez.

Para unir todos os pontos passados, segue um passo a passo:
- Defina seu Círculo de Competência: Escreva no papel os 3 temas que você precisa dominar para atingir seus objetivos nos próximos 5 anos.
- Crie sua Pirâmide de Prioridade: Liste os 5 melhores livros/cursos/conteúdos densos já criados sobre esses temas (dê preferência aos livros antigos, que passaram no teste do tempo).
- Instale a Rotina de Revisão: Antes de começar uma leitura nova, gaste 15 minutos revisando suas anotações da leitura anterior. Lute contra a curva de Ebbinghaus.
- Adote o “Aprende/Faz”: Trave seu consumo de novidades até ter executado pelo menos uma ideia do seu último aprendizado.
- Repita por toda a vida: O conhecimento é um jogo de juros compostos. A consistência em poucos temas supera a intensidade em muitos.
Ler menos não é sobre preguiça. É sobre respeito ao seu tempo e foco na excelência. Escolha poucos mentores, poucos livros e poucas ideias, mas trate-os com a seriedade que eles merecem.
Bônus: a arte da leitura profunda
A maioria das pessoas trata a leitura como uma atividade passiva, semelhante a ver televisão: deixamos as palavras fluírem sobre nós e esperamos que algo fique retido.
Mortimer Adler, autor da obra seminal Como Ler Livros, destrói essa abordagem. Para ele, a leitura para aprendizagem deve ser tão ativa e cansativa quanto um jogo de ténis. Se não está a suar mentalmente, não está a ler; está apenas a descodificar caracteres.
Ler menos livros permite-nos praticar a Leitura Profunda (Deep Reading). Em vez de fazer “esqui aquático” sobre mil livros, fazemos mergulho de profundidade em dez. Para isso, utilizamos duas ferramentas mentais poderosas:
Os Níveis de Leitura (Adler)

NÍVEIS DE LEITURA: Adler categoriza a leitura em quatro níveis evolutivos. O erro do “leitor voraz” moderno é tentar aplicar a leitura rápida (Inspecção) onde deveria aplicar a leitura lenta (Analítica).
- Leitura Elementar: A alfabetização básica. Saber o que diz a frase.
- Leitura de Inspecção: O famoso skimming. Perceber do que trata o livro, a sua estrutura e os seus argumentos centrais num curto espaço de tempo. É aqui que decidimos se o livro merece o nosso tempo.
- Leitura Analítica: Onde a magia acontece. É mastigar e digerir o livro. Significa questionar o autor, definir os termos chave e encontrar as proposições subjacentes. Isto leva tempo e não pode ser feito a correr.
- Leitura Sintópica: O nível mestre. Ler vários livros sobre o mesmo tema e relacioná-los entre si, encontrando contradições e consensos para formar a sua própria tese.
O segredo não é ler tudo analiticamente, mas sim usar a Inspecção para filtrar impiedosamente e a Análise para dominar o que resta.
O Teste de Feynman (A Prova Real)

Como saber se realmente absorveu o que leu na fase analítica? O físico Richard Feynman propôs um algoritmo simples para diferenciar o conhecimento real da simples memorização de nomes.
- Passo 1: Escolha o conceito que acabou de ler.
- Passo 2: Numa folha em branco, tente explicar esse conceito como se estivesse a ensinar uma criança de 12 anos. Evite jargão técnico.
- Passo 3: Identifique as falhas na sua explicação. Onde é que travou? Onde é que teve de usar palavras complexas para esconder a falta de clareza?
- Passo 4: Volte ao livro apenas para preencher essas lacunas específicas e simplifique novamente.
Se não consegue explicar o conceito numa linguagem simples, não o entendeu; apenas o memorizou. A Leitura Profunda exige que fechemos o livro e confrontemos a nossa própria ignorância na folha em branco.
A aplicação destes métodos é quase impossível se a sua meta for ler um livro por semana.